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Hepatite avança em silêncio

No Brasil, entre cinco e seis milhões de pessoas são portadoras da doença, mas apenas 300 mil sabem disso. O restante só costuma descobrir quando o único tratamento possível é o transplante de fígado. Principais armas contra a epidemia são informação e um simples exame de sangue

Bruna Cabral
bruna@jc.com.br



SÃO PAULO – Nem dor de cabeça, nem febre ou enjôo, nem sequer uma indisposiçãozinha de fim de tarde. A hepatite, uma das maiores ameaças à saúde pública mundial, é absolutamente silenciosa até que tenha atingido seu estágio mais avançado. Sem qualquer sintoma ou informação sobre a doença, uma em cada 12 pessoas do mundo caminha a passos largos para complicações reversíveis somente com um transplante. Em números absolutos, são 500 milhões de portadores no mundo do mais sorrateiro dos males da atualidade. Mesmo sendo consideradas uma epidemia 10 vezes maior que a aids, as hepatites B e C são ilustres desconhecidas para a maior parte das pessoas. Inclusive as infectadas.

Segundo dados do Ministério da Saúde e da ONG Otimismo, que atua na prevenção e combate dessas doenças, há no Brasil entre cinco e seis milhões de portadores das hepatites, mas só 300 mil sabem disso. “Quanto mais tarde o paciente descobre que tem a doença, mais difícil reverter os danos hepáticos”, explica o infectologista João Mendonça. Ele é o único representante brasileiro do grupo de 12 especialistas mundiais que prestam consultoria à World Hepatitis Alliance (WHA), rede mundial de organizações do terceiro setor que se formou para combater o avanço da doença, tratada como epidemia silenciosa.

A principal arma usada nessa batalha é a informação. “Não custa nada todo mundo pedir, na próxima consulta médica, uma requisição para fazer o exame”, sugere o presidente da Otimismo e vice-diretor da WHA, Carlos Varaldo. O exame é gratuito em muitos hospitais da rede pública, coberto pelos planos de saúde de todo o país e, em último caso, custa R$ 30 em qualquer laboratório. “Ninguém pode achar que está imune. A hepatite é corriqueira. Contamina quem costuma fazer as unhas, tem tatuagem ou piercing e faz sexo regularmente, além de ser transmissível até no parto”, diz Varaldo.

Ele esclarece que há três tipos de hepatite: causadas pelos vírus A, B e C. A primeira é a mais comum e menos grave. Transmitida por alimentos ou água contaminada, pode ser sintomática ou assintomática, mas o organismo se encarrega de resolver o problema. “No Nordeste, 57% das pessoas adultas já tiveram contato com hepatite A”, diz Leila Beltrão, que coordena o trabalho de mapeamento da hepatite no país, iniciativa da Organização Pan-Americana da Saúde, Ministério da Saúde e Universidade de Pernambuco.

Os tipos B e C, segundo a especialista, são bem mais graves. Na maior parte das vezes assintomáticas, as doenças tendem a se tornar crônicas por falta de diagnóstico e tratamento. Mas é a B a mais temida. “Não existe cura para esse tipo da doença, ao contrário da C. O melhor que conseguimos é interromper a multiplicação do vírus e retroceder um pouco seus níveis no organismo, mas o portador convive com ele por toda a vida”, diz Mendonça. E com um coquetel de medicamentos semelhante ao que tomam portadores do vírus HIV. “As semelhanças com a aids são muitas, mas as diferenças são mais marcantes. Principalmente com relação aos riscos de contaminação até mil vezes mais altos que a hepatite apresenta e aos números referentes ao tratamento das duas doenças.”

Usando números do Datasus, o infectologista diz que, enquanto o Brasil é considerado um país modelo no atendimento a portadores de HIV, só 2,1 mil dos dois milhões de portadores da hepatite B e 10 mil dos três a quatro milhões de portadores de hepatite C receberam tratamento no ano passado.

Dependendo de cada paciente – principalmente de seus hábitos etílicos –, as hepatites podem levar de 20 a 30 anos para chegar na fase final, “quando um transplante é a única alternativa de cura. Aliás, seria, se não morressem 80% das pessoas que entram numa fila de espera no Brasil”, diz Varaldo, que sabe bem com quantos efeitos colaterais se faz um tratamento como esse. “É muito difícil. Mas todo esforço vale a pena”, diz o empresário, que conseguiu curar-se de uma hepatite C após ter sido “desenganado” pelos médicos na década de 90. A cura trouxe também uma missão para Varaldo: romper o silêncio, que é cúmplice da hepatite no mundo inteiro.

*Texto adaptado do original publicado no Jornal do Commercio, Revista JC, Recife, 15/6/2008.

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